1. Texto Base: Jó 42:1-6
1 Então respondeu Jó ao Senhor:
2 Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.
3 Quem é este que sem conhecimento obscurece o conselho? por isso falei do que não entendia; coisas que para mim eram demasiado maravilhosas, e que eu não conhecia.
4 Ouve, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me responderás.
5 Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora te vêem os meus olhos.
6 Pelo que me abomino, e me arrependo no pó e na cinza.
2 - Introdução:
O relacionamento com Deus é o vínculo mais importante que o homem precisa ter. É por meio dele que se define quem somos, como estamos e o que seremos. Cada ação nossa, individual ou socialmente, reflete o nível em que está o nosso relacionamento com o Pai.
Não invariavelmente olhamos para o que acontece com o mundo e dizemos: Está perdido! Realmente. A miséria, a fome, as enfermidades, a criminalidade e a idolatria, por exemplo, resultam de um mundo onde as pessoas não se preocupam em manter com Deus uma relação de amor, de fidelidade, de adoração.
Na Igreja não é muito diferente. Vivemos um momento de “maleabilidade das doutrinas bíblicas”: o que antes era pecaminoso hoje pode muito bem ser aceito com um nome diferente. Algumas igrejas, grosso modo, já nem esperam dos fiéis um bom relacionamento com Deus, por isto mesmo não trabalham nem fornecem alimento consistente para um crescimento espiritual satisfatório. É a apologia do “Cristianismo fácil”, onde “tudo se pode naquele que só enfraquece” (o inimigo). Mas, destaque-se, a maneira como encaminhamos nossa vida cristã é o reflexo da fase em que estamos no relacionamento com Deus.
Por outro lado, vemos emergir no seio da Igreja uma “nova” linguagem na adoração: “Sentar no colo de Jesus. Pular nos braços do Senhor. Quero te ver. Quero de tocar, te abraçar”. Sem dúvida esta mudança de expressões é a marca registrada de um relacionamento mais íntimo com Deus, onde ser filho é ser muito mais que servo ou admirador.
A conversão, aceitando a Jesus Cristo como Salvador, é para que haja evolução na escala desse relacionamento, o qual deveria se aperfeiçoar com o passar do tempo. Infelizmente, isso nem sempre acontece, originando crentes frios, líderes estagnados, igrejas mornas.
2.1 - Contexto Bíblico-histórico
Há dúvidas pertinentes sobre a autoria e data de confecção do livro de Jó. Alguns acreditam ter sido escrito em cerca de 2000 A.C. Outros defendem que foi escrito somente no exílio Babilônico. Independentemente dessas controvérsias, o livro tem muito a nos ensinar. O personagem principal, em sua trágica, mas vitoriosa caminhada de vida, passa por momentos quase inacreditáveis, nos quais torna-se até difícil conceber de um ser humano suportar. Todavia, do início ao fim, podemos depreender, com muita clareza, algo capaz de fazer toda a diferença na história da vida de Jó: o seu relacionamento com Deus. E não apenas isto, impressiona também como tão maravilhosamente esse relacionamento foi crescendo em grandeza proporcional às dificuldades, e, no final de tudo, trouxe a constatação simples e imutável de que Deus estava no controle de toda a situação. Assim como aconteceu com Jó, a maneira de nos relacionarmos com nosso Pai celestial determina se seremos derrotados ou vitoriosos. Entendamos a seguir como isso acontece em três fases distintas.
3 – Fases do relacionamento com Deus
3.1 - Referência (Vers. 5 “...com os ouvidos eu ouvira falar de ti”)
O primeiro capítulo do livro de Jó refere-se a ele mesmo como sendo “... homem íntegro e reto, que temia a Deus e se desviava do mal”. Até o quinto versículo, lê-se a descrição invejável de um homem extremamente responsável moral, social e espiritualmente, a ponto de levantar-se de madrugada, oferecer sacrifícios e pedir perdão até por pecados supostamente cometidos por seus filhos. Sem dúvida um exemplo de servo de Deus. Entretanto, no final do livro (Cap. 42:5), percebemos Jó fazendo alusão a um tempo do passado. Quando ele diz “ouvira falar de ti”, reporta-se a um momento certamente paralelo ao primeiro capítulo mencionado acima. Isso quer dizer, para bom entendedor, que aquele tempo de homem íntegro, oferecimento de holocaustos, orações de madrugada, etc, era apenas fruto de um “ouvir falar de Deus”, em outras palavras, liturgias, rotinas, sacrifícios, legalidade, tradições, não significavam intimidade.
A fase da referência é assim mesmo: vemos Deus apenas como o Todo-poderoso, o excelso criador, o que dá e tira a vida. Afinal, foi assim que aprendemos. Quando crianças diziam-nos: Deus castiga ! Íamos à igreja e víamos as pessoas de cabeças baixas orando ou rezando bem baixinho: “silencio na casa de Deus !”. Fomos orientados, direta ou indiretamente, a manter com o Senhor uma relação distante baseada em rituais onde prevalecia a racionalidade fria em detrimento da adoração. Após todas as provações que Jó passou, ele mesmo percebeu que antes não era um adorador. As doutrinas dos homens nos ensinaram a confundir moral com Santidade, temor com intimidade, aparência com contrição.
Foi a mesma confusão que levou o jovem rico de Mateus 19:16-22 a preferir não seguir a Jesus. Ele pensava que conhecer os mandamentos e comparecer à sinagoga eram ações suficientes para fazê-lo herdar a vida eterna. Note-se que a maneira como o jovem argumentou com Jesus dizendo “tudo isso tenho guardado” demonstra ação rotineira, algo como um costume aprendido. Na verdade, resumidamente falando, os mandamentos bíblicos para aquele jovem eram apenas frases decoradas, não representavam o seu contato com Deus.
Assim também era o povo de Israel. Certa vez, como está escrito em Isaías 29:13, o Senhor demonstrou, por meio das palavras do profeta, a sua indignação ante a postura formal do Seu povo. Ele disse que toda a honra e louvor prestados por eles eram falsidade, não saíam do coração, eram “aprendidos de cor”. Se trouxermos essa questão para as relações sociais, entenderemos perfeitamente o que Deus estava sentindo. Imaginemos, por exemplo, alguém que se diz nosso amigo falar conosco apenas frases pré-fabricadas, sem espontaneidade, conversando apenas por obrigação. Ficaríamos tristes e dificilmente falaríamos com essa pessoa novamente. O mal-estar continua. Certamente o Senhor nosso Deus ainda hoje se queixa daqueles que chegam à Sua presença com discursos poéticos ou eloqüentes; daqueles que, invariavelmente, oram apenas para pedir bênçãos e lamentar seus problemas e fracassos. Sem dúvida, o Pai tem prazer naqueles que se incluem em João 4:23-24, ou seja, “O adoram em espírito e em verdade”. Este adorar diz respeito à convivência dia após dia, nas lutas, nos dilemas mais difíceis, nas impossibilidades, nas alegrias, nas vitórias. Deus quer conosco mais que um simples encontro; Ele busca incessantemente interferir nos rumos da nossa história e demonstrar a cada dia o Seu amor.
O ensinamento da provação de Jó é que certamente Deus sabia que ele, muito embora fosse considerado justo, precisava de algo mais profundo; não bastavam os rituais, a formalidade, o cumprir os mandamentos. Muitas vezes tudo o que vivemos não passa de referência de Deus. Sabemos que Ele tem poder, servimo-lo com a melhor das intenções, mas falta alguma coisa. O pior é que cada vez mais os crentes estão satisfeitos com esse estágio de relacionamento com Deus. Precisamos avançar.
3.2 - EXPERIÊNCIA (Vers. 2 “...Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.”)
Antes de tudo precisamos ter em mente uma coisa: “Deus pode fazer tudo, menos aprender em nosso lugar” (Joubert Andrade). Olhando para o início do livro de Jó é possível alguém, ao ler a passagem sobre a “autorização” de Deus às obras do diabo, entender a situação como uma crueldade. Realmente parece mesmo. Tanto que muitas linhas de pensamento chegam a duvidar da bondade de Deus por causa desse trecho bíblico. Há até os que dizem que Deus e o diabo são a mesma pessoa. Interpretações malignas à parte, a verdade é que o Senhor queria algo mais na vida de Jó, mais que ações rotineiras e costumes aprendidos. Deus sabia que Jó precisava conhece-lO melhor, e, infelizmente, o único caminho seria a experiência. Costumamos associar a vida de Jó a exemplo de sofrimento e penúria. Contudo, no texto em destaque acima, percebemos os frutos de tudo o que ele passou. Antes a relação dele para com Deus era de criatura para criador, e agora, ele fala como quem sabe de quem está falando. Este é o ponto ao qual o Senhor quer nos levar por meio da experiência, e precisamos compreender isso.
Foi pela experiência na luta contra o anjo do Senhor que Jacó se tornou Israel. A mesma coisa aconteceu com Moisés durante quarenta anos no deserto para ser habilitado a levar o povo escolhido à terra prometida. Também foi assim com Isaías que precisava profetizar na unção do Espírito. E por último, foi pela experiência que Saulo perseguidor se tornou Paulo, o apóstolo. Certamente há muitos crentes guardados nas igrejas cujos ministérios não são proeminentes e cujas vidas são vazias e opacas. Claro, eles ainda não passaram pela experiência, pior, geralmente eles fogem dela, têm medo da dor e não querem assumir um compromisso com Deus, pois preferem a fase da referência onde não crescem, mas também não sofrem.
Algo fascinante no livro de Jó é o silêncio de Deus em relação à tribulação do Seu servo. Certamente uma só palavra vinda do céu solucionaria todo o sofrimento. Acontece que qualquer tipo de resposta inicialmente impediria Jó de chegar ao seu limite. Podemos imaginar, tal qual um pai olhando para seu filho, Deus olhando para Jó. Certamente Ele sentiu tristeza em seu coração, teve por inúmeras vezes vontade de intervir para aliviar a dor e terminar de vez com aquela “tortura”. Mas Jó precisava crescer. E só se cresce quando os limites são transpostos; quando os muros das nossas possibilidades são derrubados; quando os paradigmas e dogmas são estilhaçados; quando a nossa fé sobrepõe o medo e a desesperança. Somente por causa daquela experiência tão terrível Jó foi capaz de afirmar “...bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido”. O verbo saber nesse caso pode ser interpretado como aprendi, constatei, vivi.
3.3 - CONHECIMENTO (Vers. 5 “...mas agora te vêem os meus olhos”)
É lógico colocarmos o conhecimento logo após a experiência, pois é ela a causadora e ele o efeito. Porém, nem sempre viver situações durante a vida significa aprendizado. Há tantas pessoas no mundo que já passaram por centenas de experiências e mesmo assim continuam errando nas mesmas coisas, não aprenderam nada. Daí se faz necessário analisar o vocábulo principal que é o verbo conhecer. Segundo o Dicionário Aurélio em um de seus conceitos, conhecer é “ser versado” em alguma coisa. Versar é praticar, exercitar. Sugere-nos estudo, acompanhamento, percepção, convivência. Portanto, quando alguém afirma conhecer de verdade outro alguém é porque há uma história entre eles. As experiências só geram conhecimento quando são vividas literalmente por aqueles que desejam aprender com elas. O relacionamento com nosso Pai celestial caminha de igual forma. Todos os dias são como capítulos da nossa história com Ele. Alguns de nós possuem longas histórias, escritas à base de muita vivência, com letras profundas, quase furando a folha. Outros, porém, têm histórias contadas em duas ou três “mal traçadas linhas”, escritas de grafite e com letras tremidas, tamanha a pressa de quem escreveu.
Jó é um exemplo de história escrita na rocha. A fase de referência que ele vivera não lhe trazia dores, também não lhe mostrava quem era Deus. A afirmação “agora te vêem os meus olhos” é mais profunda do que se deixa transparecer. Quer dizer, em bom tom, que anteriormente o seu Deus era visto por ele pelos olhos de terceiros. Olhando historicamente como se desenvolveram as culturas dos povos, podemos inferir que Jó tinha um conhecimento do Criador vindo talvez de uma tradição oral, passada de pai para filho. Ou quem sabe teve notícias de um Deus eterno Criador de todas as coisas e resolveu servi-lO. Não sabemos ao certo, mas percebemos que ainda hoje, assim como Jó, muitos vêem o Senhor por reflexos de espelhos embassados, sujos e até quebrados. Jó aprendeu a vê-LO face a face, “com seus próprios olhos”. Não foi uma experiência emprestada, como o machado do aprendiz do profeta Eliseu (II Reis 6:1-6), mas foi comprada a preço de ouro.
Quando o profeta Oséias nos orienta “...prossigamos em conhecer ao Senhor”(Os. 6:3) pode até causar um “nó na garganta” dos que ainda vivem na referência, afinal, o conhecimento vem por meio da experiência, e a experiência geralmente vem acompanhada da dor, da dificuldade, da impossibilidade, então quer dizer que para conhecer mais e mais a Deus precisaremos ter uma vida de constante sofrimento e tribulação. O raciocínio é lógico, porém, fruto de quem ainda não tem experiência mesmo. Se verificarmos a Bíblia nos aperceberemos de que a tribulação é assim denominada somente para quem a vê dessa forma. Confuso ? Não muito. O apóstolo Paulo certa vez disse algo muito interessante: “... e não somente isso, mas também gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a Tribulação produz a perseverança”(Romanos 5:3). É pelo muito correr que alguém se torna um atleta. É pelo muito lutar que alguém se torna um guerreiro. Perseverar é “conservar-se firme e constante”. Ora, é essa uma vontade de Deus: que sejamos firmes e constantes. Por uma questão de natureza humana, quando vivemos somente alegrias, nos esquecemos do quanto somos fracos e precisamos dos outros e do nosso Pai Celestial. As experiências nos levam por vezes ao fundo do poço para nos ensinar a ter humildade, pois, nesta situação, precisamos aprender a olhar as pessoas de baixo para cima, pior, ainda pedir ajuda. Jesus aqui na terra foi o maior exemplo de humildade, inclusive, Ele mesmo afirmou : “Bem-aventurados os humildes, porque deles é o reino dos céus (Mateus 5:3). É, portanto, a humildade uma virtude que nos leva para mais perto de Deus. A perseverança também foi um ensinamento deixado por Jesus, pois, em meio a tantas dores pelas quais passou, não desistiu, mas continuou na direção do Seu objetivo perseverando até o fim.
Exemplo que não poderia faltar sobre conhecimento é o do Rei, salmista e adorador Davi. Seu perfil é uma referência bíblica e histórica jamais alcançada por qualquer outro mortal. Era guerreiro bruto e feroz, mas sensível para agir com amor. Cometia transgressões gravíssimas, mas não perdia de vista o perdão. Era submisso quando servo, mas sabia administrar seus liderados na direção da vitória. É difícil descrever a plenitude do seu caráter, porém, uma frase dita pelo profeta Samuel resume a historia de Davi: “... já tem o Senhor buscado para si um homem segundo o Seu coração...”(I Samuel 13:14). A riqueza e profundidade dessa afirmação é quase infinita e com certeza valerá ainda muitas pregações e estudos. Dois pontos, porém, não podem passar em branco. Primeiro o fato de Deus “buscar” e depois a frase “segundo o Seu coração”. A Bíblia enfatiza vários momentos em que o Senhor literalmente busca algo na humanidade. Por exemplo, quando Ele buscava “...dentre eles um homem que levantasse o muro, e se pusesse na brecha perante mim por esta terra...”(Ezequiel 22:30). O buscar de Deus não consiste numa simples procura, é muito mais que isso. Não é como aqueles faróis de prisões que vemos em filmes, onde o foco vai passando e verificando se há alguém na escuridão. Na verdade, quando Deus busca, é semelhante a um raio laser que passa através de nós. Não há barreiras para Sua visão. Esse buscar pode ser compreendido como sinônimo de esquadrinhar, perscrutar e avaliar. Davi entendia bem o significado disso quando disse “Senhor tu me sondas e me conheces” (Salmos 139:1). Já a questão do “segundo o seu coração” pode ser depreendida quando o Senhor afirmou: “...porque, assim como o céu é mais alto do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55:9). Quando Deus buscava um rei para Israel, estava querendo alguém que tivesse caminhos e pensamentos o mais próximo possível dos Seus. Aliás, esse é o grande resultado do estágio do conhecimento: passamos a caminhar e pensar de acordo com o caráter de Deus. Parece utopia, ou talvez uma pretensão impossível, pensar como o Todo-poderoso, mas é essa a perspectiva que Ele quer nos fazer alcançar quando se dá a ser conhecido por nós. Quando verdadeiramente conhecemos ao Senhor distinguimos Seu caráter por meio de Suas obras. Não ficamos perguntando se “aquela manifestação lá na igreja foi de Deus ou do diabo”. Não temos dúvidas se vamos ou não alcançar aquela vitória. Não desistimos do propósitos que Ele coloco em nossos corações. Enfim, quando O conhecemos, agimos e vivemos à sombra dos Seus caminhos e dos Seus pensamentos para conosco.
Em síntese, o conhecimento é resultante da convivência, do prazer de estar perto, do anelo incessante pela presença do Senhor, independentemente das dificuldades ou facilidades que isso possa nos trazer. As igrejas estão cheias de crentes e servos, mas há poucos amigos de Deus. Certamente ainda hoje o “raio laser” divino continua a atravessar cada um de nós, verificando, avaliando, sondando, rastriando cada pensamento, cada ação. O avivamento virá a nós e todos o sentirão quando formos encontrados pelo Senhor.
domingo, 23 de março de 2008
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